Outros Nomes
Arte ingênua
Definição
O termo arte naïf aparece no vocabulário artístico,
em geral, como sinônimo de arte ingênua, original e/ou instintiva,
produzida por autodidatas que não têm formação culta no campo das artes.
Nesse sentido, a expressão se confunde freqüentemente com arte popular,
arte primitiva e art brüt,
por tentar descrever modos expressivos autênticos, originários da
subjetividade e da imaginação criadora de pessoas estranhas à tradição e
ao sistema artístico. A pintura naïf se caracteriza pela ausência das
técnicas usuais de representação (uso científico da perspectiva, formas
convencionais de composição e de utilização das cores) e pela visão
ingênua do mundo. As cores brilhantes e alegres - fora dos padrões
usuais -, a simplificação dos elementos decorativos, o gosto pela
descrição minuciosa, a visão idealizada da natureza e a presença de
elementos do universo onírico são alguns dos traços considerados típicos
dessa modalidade artística.


A história da pintura naïf liga-se ao Salon des
Independents [Salão dos Independentes], de 1886, em Paris, com exibição
de trabalhos de Henri Rousseau (1844 - 1910), conhecido como "Le
Douanier", que se torna o mais célebre dos pintores naïfs.
Com trajetória que passa por um período no Exército e um posto na
Alfândega de Paris (1871-1893), de onde vem o apelido "Le Douanier"
(funcionário da alfândega), Rousseau dedica-se à pintura como hobby.
Pintor, à primeira vista, "ingênuo" e "inculto", pela falta de formação
especializada, dos temas pueris e inocentes, é responsável por obras que
mostram minuciosamente, de modo inédito, uma realidade ao mesmo tempo
natural e fantasiosa, como em A Encantadora de Serpentes, 1907.
Seu trabalho obtém reconhecimento imediato dos artistas de vanguarda do
período - como Odilon Redon (1840 - 1916), Paul Gauguin (1848 - 1903),
Robert Delaunay (1885 - 1941), Guillaume Apollinaire (1880 - 1918),
Pablo Picasso (1881 - 1973), entre outros -, que vêem nele a expressão
de um mundo exótico, símbolo do retorno às origens e das manifestações
da vida psíquica livre e pura. Em 1928, o colecionador e teórico alemão
Wilhelm Uhde (1874 - 1947) - um dos descobridores do artista - organiza a
primeira exposição de arte naïf em Paris, reunindo obras de Rousseau,
Luis Vivin (1861 - 1936), Séraphine de Senlis (1864 - 1942), André
Bauchant (1837 - 1938) e Camille Bombois (1883 - 1910). Mais tarde, o
Museu de Arte Moderna de Paris dedica uma de suas salas exclusivamente à
produção naïf.


Autora: Rosangela Borges Autora: Valquíria Barros
No século XX, a arte naïf é reconhecida como uma
modalidade artística específica e se desenvolve no mundo todo, sobretudo
nos Estados Unidos, na ex-Iugoslávia e no Haiti. Em solo
norte-americano, as inúmeras cenas da vida rural pintadas por Anna Mary
Robertson (1860 - 1961) - conhecida como Vovó Moses - adquirem
notoriedade quando a artista, autodidata, descoberta por um
colecionador, completa 80 anos. Oriunda da tradição de retratistas
amadores, a arte naïf norte-americana encontra expressão nas obras de J.
Frost (1852 - 1929), H. Poppin (1888 - 1947) e J. Kane (1860 - 1934).
Na Inglaterra, o nome de Alfred Wallis (1855 - 1942) associa-se a navios
à vela e paisagens. Descoberto em 1928 pelos artistas ingleses Ben
Nicholson (1894 - 1982) e Christopher Wood (1901 - 1930), Wallis pinta
com base na memória e na imaginação, em geral com tinta de navio sobre
pedaços irregulares de papelão e madeira. Na ex-Iugoslávia, a arte naïf
faz escola, na qual se destaca, por exemplo, Ivan Generalic (1914 -
1992).
Soluções da arte naïf são incorporadas a diversas tendências da arte moderna, seja pelo simbolismo (em busca da essência mística das cores), seja pelo pós-impressionismo
de Paul Gauguin, que vai para o Taiti em 1891, e faz pesquisas em
direção à cultura plástica das chamadas sociedades primitivas, o que se
revela no uso de cores vibrantes e na simplificação do desenho como em Ta Ma Tete - Mulheres Taitianas Sentadas num Banco, 1892, e Te Tamari no Atua - Natividade,
1896. Os trabalhos realizados sob a égide do Blauer Reiter (O Cavaleiro
Azul) - grupo do qual participam August Macke (1887 - 1914) e Paul Klee
(1879 - 1940) - e a obra de Wassili Kandinsky (1866 - 1944), em defesa
da orientação espiritual da arte, também se beneficiam de sugestões da
arte naïf.


Se em sua origem essa modalidade é definida como
aquela realizada por amadores ou autodidatas, o processo de
reconhecimento e legitimação obtidos nos circuitos artísticos leva a que
muitos pintores, com formação erudita, façam uso de procedimentos caros
aos naïfs. Além disso, a arte naïf desenha um circuito próprio e conta
com museus e galerias especializados em todo o mundo. No Brasil,
especificamente, uma série de artistas aparece diretamente ligada à
pintura naïf, como Cardosinho (1861 - 1947), Luís Soares (1875 - 1948), Heitor dos Prazeres (1898 - 1966), José Antônio da Silva (1909 - 1996) e muitos outros. Entre eles, ganham maior notoriedade: Chico da Silva (1910 - 1985) - menção honrosa na 33ª Bienal de Veneza - e Djanira (1914 - 1979). Aluna do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, Djanira completa sua formação com aulas de Emeric Marcier (1916 - 1990) e Milton Dacosta (1915 - 1988),
seus hóspedes na Pensão Mauá, no bairro de Santa Teresa, no Rio de
Janeiro. Nos anos 1950, ela é artista consagrada e uma das lideranças do
Salão Preto e Branco. A arte popular do Nordeste brasileiro - as xilogravuras que acompanham a literatura de cordel e as esculturas de Mestre Vitalino (1909 - 1963) - figura em algumas fontes como exemplos da arte naïf nacional.
Fonte: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=5357
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